segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Congelar o tempo".


Foi em pequena que descobri a beleza dos corpos, a magnitude da nudez humana. A maioria das pessoas não faz a mínima ideia do poder que os seus gestos têm no Mundo, em tudo o que tocam.
Não conseguia evitar o poder que exerciam em mim, só me apetecia desenhá-los com o olhar. Por isso, parava o tempo, congelava-o na minha mente. Nesses segundos despia os corpos, sentava-me à beira deles e transportava a sua essência para o papel. Como eram belos e como me faziam sentir bem!
Penso que esta necessidade de amar os corpos provinha de nunca ter amado ninguém em particular. Não sabia o que era o amor. Na verdade, pensava que não existia. Não tinha provas da sua existência, não era algo visual nem palpável. Para mim o belo tinha que ser algo que existisse, que me fizesse sentir a necessidade de congelá-lo na minha mente e de desenhá-lo incessantemente nas páginas brancas e duras do meu bloco sagrado.
Mas foi então que o conheci. Para além dos seus traços faciais únicos e do seu olhar que me fazia transportar para um novo mundo, a influência que exercia em mim foi o que me fez querer parar o tempo. Essa influência era algo que não via, que não podia tocar mas que sentia, que me fazia vibrar. Embora esse sentimento arrebatador não fosse visual eu conseguia descrevê-lo, desenhá-lo, acariciá-lo.
Percebi que o amor existia mas que aparecia num único segundo da nossa vida e, se eu não estivesse atenta ele teria escapado e nunca mais voltado.
E só então percebi o porquê deste talento que me foi oferecido, desta possibilidade de "congelar o tempo". Permitia-me estar atenta a cada segundo da minha vida porque ele pode mudar as nossas vidas. E é nesse segundo que podemos apreciar a beleza, beijá-la, desenhá-la e amá-la para toda a vida!

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